Indução de Tolerância Oral ao Leite

Os seguidores mais atentos do Copinho de Leite já devem ter percebido que o Pedro iniciou um tratamento de indução de tolerância oral às proteínas do leite. Falei disso em traços gerais na entrevista que dei à revista Visão, em setembro, no entanto, ainda nunca me tinha sentido preparada para contar aqui como está a ser esta experiência, que iniciámos em 2018.

O que é a Indução de Tolerância Oral?

Indução de Tolerância Oral (ITO), também conhecida como dessensibilização, é um tratamento feito em ambiente hospitalar que consiste na administração, via oral, de uma pequena dose do alergénio (leite no nosso caso). Em termos simplistas, a ideia é no dia de cada tratamento chegar-se a uma dose considerada segura e depois “vir para casa com essa dose” e ter de ingeri-la, rigorosamente, todos os dias como se de um medicamento se tratasse. De sessão para sessão vai-se aumentando a quantidade ingerida. O objetivo é conseguir alcançar-se uma dose considerada segura (em torno dos 200ml), para um dia se fazer uma alimentação sem restrições.

Não confundir com a Prova de Provocação Oral (PPO), que se trata de um exame também feito em ambiente hospitalar, mas que é utilizado para se diagnosticar uma alergia ou aferir se esta persiste.

O nosso caso

Pouco tempo antes do Pedro fazer seis anos e dado que a alergia às proteínas do leite de vaca (APLV) se mantinha inalterada, a médica imunoalergologista que o segue propôs-nos avançar para uma ITO. Tivemos muitas dúvidas, mas o fato da ITO só ter início dali a sete meses deu-nos tempo para amadurecer a ideia.

Na minha qualidade de vice-presidente da Alimenta já tinha assistido a várias exposições médicas que demonstravam as elevadas taxas de sucesso deste tratamento. Enquanto mãe, deu-me força a ideia de que estava a fazer algo que, a médio/longo prazo poderia contribuir para uma melhoria da qualidade de vida do Pedro e, consequentemente, para a do resto da família.

O início da ITO

O dia 24 de maio de 2018 ficará para sempre na história da nossa família e, de certo modo, também deste blogue. Foi o dia em que o Pedro começou a indução de tolerância oral ao leite.

 O tratamento começou com a administração de uma gota de leite por baixo da língua, gota esta que após alguns segundos ele tinha de cuspir. Repetiu-se este procedimento mais umas três vezes, aumentando o tempo de permanência na boca. Dado que tudo correu bem, passou-se para a ingestão destas gotas de leite de vaca com intervalos de cerca de meia-hora/quarenta minutos, sempre sob vigilância médica e com os devidos dispositivos de emergência por perto, caso algo corresse mal.
No final de quase um dia no hospital deu-se por concluída esta fase de arranque e voltámos para casa com a indicação de administrar, via oral, 1ml de leite de vaca após o pequeno-almoço e 1ml de leite de vaca após o jantar. Um pequeno grande passo para uma criança que chegou a reagir, com gravidade, até por inalação e por contacto.

Uma prova de barreiras

Ver um filho alérgico ao leite a ingeri-lo (ainda que sejam escassos ml) é, sem dúvida, uma vitória. No entanto, é também um processo mental muito difícil, sobretudo para mim. Tanto assim é que, volvido quase um ano, é quase sempre o pai a dar-lhe o leite.

Explicar o objetivo deste tratamento a uma criança de seis anos (agora sete) também é difícil, porque não podemos em hipótese alguma dizer: “estamos a fazer isto para deixares de ser alérgico ao leite”. Isto porque não sabemos se a ITO será concluída com sucesso e, em rigor, este tratamento não é uma cura para alergia – força apenas o organismo a tolerar uma determinada quantidade do alergénio.
É um processo duro para todos os envolvidos, mas sobretudo para eles, física e psicologicamente.

De mililitro em mililitro

De 1 ml de leite de vaca duas vezes ao dia, passámos para 2,5 ml, depois para 3 ml e agora estamos com 7,5 ml.
Com atribulações de toda a ordem pelo meio, o caminho tem-se feito devagarinho, mas a verdade é que não temos pressa nenhuma.

Olá vestígios

Em termos práticos o que é que mudou na nossa vida, para já? Bom, continuamos a ter kits de emergência com a medicação do costume, incluindo adrenalina. Continuamos a ler todos os rótulos e a tratar o Pedro com os mesmos cuidados que tivemos até então. 
A novidade é que ele já pode comer alimentos que tenham a indicação “pode conter vestígios do leite”, o que abriu todo um mundo de possibilidades, nomeadamente ao nível da gulodice.
Que esta nova fase seja doce, é tudo o que desejo.

3 thoughts on “Indução de Tolerância Oral ao Leite

  1. Também sou o pai de um menino com APLV c 6 anos numa historia tudo identica á do Pedro. Neste momento o Duarte teve de baixar para 0,5ml, mas tb sentimos q é uma grande vitoria! Na ultima visita ao hospital (aqueles desenhos na parede na foto, sao dele – adoro) ele falou c um rapaz de 15 anos q começou aos 11 e q faz os 200ml. O rapaz (outro Duarte) ate deu o contacto ao meu para se ele alguma vez quiser desistir, para lhe ligar q ele ia ter c ele ao hospital para o incentivar. Isto para dizer q estas partilhas têm sido um balão bom neste processo. Não te culpes por não dar o leite pq para mim ainda tem sido mais dificil e ainda nao consigo enfrentar o processo…mas quero tanto q dê certo. Ainda só começou á 1 mês e tb ja tivemos alguns percalços. Muita força e acredita!

    • Obrigada pela partilha! É tão bom saber que não estamos sós nesta caminhada. Que maravilha de história! Que tudo corra pelo melhor convosco! 🙌🏻

      • Olá a todos! A minha filha é um pouco mais velha…já tem 18 anos. A APLV foi detectada em bebé, mas na altura não fui tão orientada como hoje em dia ( e mesmo assim só quem acompanha ou tem alergia é que sabe o quanto ainda há desconhecimento da parte dos outros). Mas enfim, a minha questão é a seguinte, a minha filha já teve que ir algumas vezes ao hospital, mas nunca foi uma situação super grave. Alimentos que possam conter vestígios, ela consome sem problemas. Eu, à custa dela e de uma alimentação mais saudável, deixei de consumir leite, então não vejo o leite como um alimento que lhe vá fazer bem em algum momento, e fazendo essa dessensibilização, tem que passar a consumir diariamente? para sempre? Ela uma vez fez, correu bem, mas depois desistimos. Mas claro que se ela não tivesse restrições eu ficaria muito menos preocupada (no fora de casa, pois dentro de casa sou eu que cozinho e tento consumir quase 0 de produtos processados). Será que devo voltar a dessensibilização? ela já é responsável, anda sempre com o remédio na carteira, o maior problema são os outros…quando perguntamos se alguma coisa tem leite e respondem “Penso que não”…, não é pensar, tem que saber! Enfim, gostaria de saber opiniões, mas claro que a minha filha como maior, já poderá decidir.
        Obrigada

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *