Ponto de situação

Aos cinco anos e meio, o Pedro mantém-se alérgico às proteínas do leite de vaca. Assim o demonstram as últimas análises sanguíneas, sendo que os valores não têm oscilações relevantes (no bom e no mau sentido), do ponto de vista clínico, há mais de dois anos.

De dia para dia sou confrontada com a pergunta sacramental: “mas ‘isso’ ainda não lhe passou?”. Porque há sempre alguém que conhece uma criança cuja alergia alimentar passou com a “mudança de idade”. De repente, fica ali a pairar sobre nós, pais, um atestado de incapacidade geral: possivelmente não estamos a fazer tudo “como deve ser”, possivelmente não estamos a ser bem acompanhados do ponto de vista médico, possivelmente não estamos a rezar aos santinhos certos ou a projectarmo-nos, com energia suficiente, num futuro sem restrições alimentares. E ali ficamos a justificarmo-nos por algo que nos transcende completamente e que, se dependesse de nós, obviamente, já estaria resolvido.

Continuo a achar que as pessoas continuam a bater nesta tecla porque lá bem no fundo (ou se calhar não tão lá no fundo) acreditam que a alergia alimentar esteja mais próxima de um capricho, altamente transitório, do que de uma condição de saúde muito séria.

Nota: quando (e se) passar eu tratarei de serenar os vossos corações inquietos!

 

 

4 thoughts on “Ponto de situação

  1. Olá

    O meu Pedro, que em Setembro irá fazer 9 anos tem uma alergia muito grave à plv (classe 6) e também estão sempre a fazer a mesma pergunta. Aos 5 anos deixei de fazer as análises, porque continuavam exactamente na mesma. A minha pediatra já nos disse que provavelmente nunca irá passar, não sei o que diga. Nesta fase, ensino-lhe a ver os rótulos e tudo o que diz “…poderá conter vestigios”, ele sabe que não pode comer. Entretanto, tenho a Maria Luísa que faz 3 anos e, que até agora, não tem alergias alimentares, mas sabe que o Pedro tem. Nesta fase, dizemos que o Pedro não pode comer, porque lhe faz muito mal e ela já sabe que há muitas coisas que ele não pode comer.
    Em Setembro irei perguntar à pediatra qual será a melhor altura para lhe ensinar a funcionar com a caneta de adrenalina. Ele sabe que a tem, mas achamos que até agora seria-lhe imputar muita responsabilidade saber como funciona.
    Tudo isto para lhe dizer que não está sózinha. É verdade, o meu marido também apanhou um choque anafilático com derivados de penicilina, depois de ter tomado toda a sua vida. De facto, as alergias podem ocorrer a qualquer momento.

    • Olá, Patrícia!
      Muito obrigada pela sua partilha. Temos tanto em comum!
      Nunca considerou um tratamento de dessensibilização?

      • Olá, é novamente a Patrícia e gostaria de partilhar consigo outra história do meu filho Pedro. Antes de ir de férias, fomos jantar a casa dos amigos. Como sabem da alergia, perguntaram o que podiam fazer, para jantarmos todos juntos, Ficou decidido frango assado no forno, algo que o Pedro adora e consensual para toda a gente. Nesse dia, o Pedro repetiu três vezes e adorou o molho. Foi, nessa altura, que pedi ao meu amigo que me desse a receita do molho. Ele começou por dizer que tinha muito gengibre, que colocou azeite, uma noz de manteiga. O meu coração parou e perguntei-lhe: Tu colocaste manteiga? Mas manteiga, manteiga? ou de soja? O meu amigo ficou branco e eu fiquei em choque, por dentro. Levantei-me, o Pedro estava bem e disse-lhe, temos que ir já para o hospital, a acontecer o choque, que seja em ambiente hospitalar. Meti-me a caminho e entretanto falei com a pediatra que ia acompanhando a situação. A verdade, é que ele, na sua situação/gravidade é para fazer choque. Já tinham passado vinte minutos e estávamos na entrada do hospital e eu sempre a controlar a respiração, como estava a língua, se sentia alguma coisa. Entrámos e, Graças a Deus, não fez qualquer reacção. A manteiga foi colocada no forno e atingiu grandes temperaturas, mas a pediatra que o viu, mais uma vez comentou que, no quadro dele e com a sua gravidade era para fazer choque. Não fez. Saímos de lá e falei calmamente com o meu filho a explicar a situação e a dizer-lhe que teríamos que continuar com a alimentação restritiva, mas que iríamos fazer análises para ver como evoluíram as suas alergias. Fez este sábado e eu, prometi a mim mesma, não alimentar qualquer esperança de melhoria significativa. Os resultados só virão na próxima semana. Dou por mim a não alimentar qualquer esperança, porque sei que será muito difícil uma melhoria significativa. Talvez a melhoria possa passar por uma dessensibilização, não sei. Vamos ver. Bjs e vou acompanhando o seu blog.

        • Patrícia, só agora tive oportunidade de ler o seu relato. Muito obrigada por mais esta partilha. Por esta altura já deve haver algum desenvolvimento. Gostava tanto de saber! Estou a torcer por vocês. Se não quiser partilhar aqui pode fazê-lo para ocopinhodeleite@gmail.com. Um beijinho

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