O sentido da normalidade*

Passaram-se quase quatro anos desde que foi diagnosticada a alergia alimentar ao meu filho, a qual, pelos motivos óbvios, trouxe restrições de ordem variada às nossas vidas.

Eu que não sou nada atreita a balanços tenho estado particularmente introspetiva nos últimos meses. Ao início, não percebi bem do que me encontrava a padecer, mas hoje sei-o perfeitamente: sinto falta de um certo sentido da normalidade nas nossas vidas. Poderão dizer que a questão da “normalidade” é muito relativa e eu concordo. Mas, a verdade é que somos portugueses! A alimentação tem um peso enorme na nossa cultura. Tudo nas nossas vidas gira em torno de uma mesa (ou duas) de comida! E eu, nos últimos anos, não tenho feito nada mais do que, “qual salmão”, nadar contra uma forte corrente.

A título de exemplo, em Novembro o meu filho fez anos e comecei a procurar espaços para sua festa de aniversário. Tinha um espaço cultural de uma autarquia debaixo de olho. O programa incluía teatro e depois um pequeno lanche. Eu expus a situação da alergia alimentar e ficaram de me apresentar uma solução. Esta não demorou, é um facto. Mas qual era?

“Todos os meninos comem o nosso lanche, com excepção do aniversariante, que terá de trazer o seu de casa”. Como é que alguém acha razoável propor isto a uma mãe? Esta já é a realidade dele TODOS OS DIAS! O menino que leva marmita para as festas de aniversários dos amiguinhos (e para todo o lado, na realidade). Escusado será dizer que a conversa ficou por ali.

Acabámos por fazer a festa num espaço ainda melhor, com a presença de todos os meninos e com a alimentação 100% adaptada. Tudo feito em casa, claro.

Neste momento, esta é a nossa normalidade. Há-que aceitá-la.

*Texto publicado originalmente na Up to Kids, a 23/12/2015

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