Jornalismo, alergias alimentares e karma

Nas minhas deambulações pela Internet cruzei-me com uma história muito curiosa, que envolve temáticas que me são muito caras: jornalismo, alergias alimentares e… karma! Partilho-a em traços gerais:

Em 2010, Joel Stein, jornalista, escreveu um polémico artigo para o jornal LA Times, intitulado “Nut allergies — a Yuppie invention”. Neste artigo, Stein ridicularizava os pais de crianças com alergias alimentares, com frases como:

“O seu filho não tem uma alergia aos frutos secos. O seu filho tem pais que precisam de sentir-se especiais”

ou

“A não ser que seja um personagem da série ‘Heroes’, os genes não se mutam tão rápido a ponto de causar um aumento de 18% no número de crianças com alergias alimentares, entre 1997 e 2007”.

Escusado será dizer que a comunidade da alergia alimentar caiu-lhe em cima (não literalmente, ok?), despertando a ira de médicos, famílias, bloggers e, até, de um Rabi, que o lembrou da existência do Karma. Houve quem fosse ainda mais longe e desejou-lhe que, se um dia tivesse filhos, estes desenvolvessem alergias alimentares….

Joel Stein foi, efectivamente, pai, algum tempo depois. Quando o seu filho tinha um ano provou frutos secos pela primeira vez e teve uma reacção alérgica, com anafilaxia. Stein escreveu sobre esta experiência para a revista Time, num artigo intitulado “A Nut Allergy Skeptic Learns the Hard Way”.

“O artigo que eu escrevera para o LA Times não foi a primeira coisa que me veio logo à cabeça, mas foi a segunda”.

O jornalista relata que acabou por correr tudo bem mas que, logo ali no hospital, foi confrontado com as ironias desta realidade:

“Depois de algum Benadryl, das instruções sobre como usar a Epipen e da chocante constatação de que o hospital onde estávamos tinha um McDonalds lá dentro, voltámos para casa. Ainda a pé, às três da manhã, dei por mim a acreditar piamente nesta epidemia”.

Seis semanas após o sucedido, durante uma consulta de imunoalergologia com o filho, Stein relata que ganhou coragem para contar à médica que ele era o tipo que tinha escrito o tal artigo da polémica, escondendo-se logo atrás do filho de um ano. E conclui:

“Entendi que, quanto mais percebo as dificuldades das outras pessoas, menos engraçadas estas se tornam”.

Ainda assim, Joel Stein não abandona o tom bem-humorado e lamenta que o filho nunca possa vir a ser um “super-espião, porque o inimigo poderá envenená-lo, facilmente, com uma guloseima feita na mesma linha de produção que outras, com frutos secos na sua composição”.

Mixed Nuts

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