A Nossa História*

Afinal, não é como nos filmes

O Pedro nasceu às 40 semanas e um dia, de parto natural, em Novembro de 2011. Sempre fez parte dos meus planos amamentar, todavia, ainda na sala de recobro, pude ver que as coisas não seriam tão fáceis como eu pensara. Depois de várias tentativas frustradas e sem grande ajuda por parte das enfermeiras, estas acabaram por dar-lhe algum leite numa seringa. Uma situação que se repetiu no espaço de poucas horas, após o seu nascimento. Já no quarto, pela noite dentro, o Pedro começou a mostrar sinais de que não estava bem, de que estaria a sufocar com alguma coisa. Em pânico, chamámos as enfermeiras (o meu marido estava comigo) e lá o levaram. Quando o trouxeram disseram que tinha sido aspirado e que já estava tudo bem.

Fomos para casa e continuei sempre a insistir com a amamentação, mas o bebé perdia peso de um modo assustador, pelo que, passados alguns dias tivemos de introduzir um suplemento. A conselho da enfermeira com quem tínhamos feito o curso de preparação para o parto, optámos por uma fórmula hipoalergénica. Finalmente, começou a ganhar peso e tudo parecia correr bem, não fosse o facto dele não dormir e chorar… chorar… chorar…

Lembro-me dele ter 21 dias e de eu perguntar ao pediatra se não era suposto um bebé com este tempo dormir mais de 20 minutos seguidos. Ele respondeu-me que cada caso era um caso e que havia bebés assim. Eu conformei-me, uma vez que também tinha sido uma bebé particularmente difícil.

O que se passa com o nosso bebé?

Quando o Pedro tinha dois meses, apareceu-lhe uma pequena mancha avermelhada na cara, que parecia ter vindo para ficar. O pediatra disse que era um eczema, para hidratarmos e não nos preocuparmos. Assim fizemos, só que o pequeno eczema evoluiu para um grande eczema que já cobria a face inteira, o pescoço, o peito, a barriga, os braços. A conselho do pediatra experimentámos um sem número de linhas de produtos para peles atópicas, sem resultados visíveis. Tivemos que começar a aplicar cortisona e a dar um anti-alérgico. O eczema melhorava ligeiramente para, logo de seguida, ficar descontrolado e criar pus ao ponto da roupa ficar colada ao corpo.

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O sono do Pedro, que já era uma desgraça, ressentiu-se ainda mais com o desconforto cutâneo. Tinha de dormir de luvas para não se coçar. Neste ponto, questionámos o pediatra se não seria melhor ele ser visto por um dermatologista ou até por um alergologista, uma vez que já começávamos a suspeitar que algo mais se passava. Ele respondeu, categoricamente, que não e que estes especialistas dir-nos-iam o mesmo que ele…

Entretanto, aos quatro meses, chegou a altura de introduzirmos a primeira papa e a escolha recaiu sobre uma não-láctea. O Pedro comeu algumas colheres e, quase de imediato, começou a ficar todo às manchas e com a cara um pouco inchada. Suspendemos a toma da papa sem, no entanto, achar que o problema estava nela, mas sim, na colher de silicone que tínhamos utilizado. As manchas acabaram por dissipar-se ao cabo de duas horas. No dia seguinte, fizemos uma nova tentativa, com outra colher e com outra papa não-láctea, de uma marca diferente. Bastou uma colher para as manchas aparecerem. Algo de errado se passava. Como isto se passou num domingo, enviámos um e-mail ao pediatra a relatar o sucedido. A resposta não demorou: “tentem outras marcas e, em relação à pele, continuem a hidratar”…

Desiludidos, ainda nesse dia consultámos o “Dr. Google” em busca de uma eventual resposta e, foi então, que se fez luz: estávamos, quase de certeza, em face de uma alergia ao leite – algo bem mais grave do que um mero problema de hidratação, como o pediatra em quem confiávamos nos tinha feito crer ao longo daquele tempo. Nesse mesmo dia, foram tomadas três decisões: procurar um novo pediatra; marcar uma consulta de imunoalergologia e outra de dermatologia pediátrica e suspender, imediatamente, a toma do leite de fórmula.

Alergia às Proteínas do Leite de Vaca (APLV)

Dois dias depois, sentados no consultório da imunalergologista, confirmámos que os instintos de pais, ainda que de primeira viagem, não falham. O diagnóstico foi quase imediato: alergia às proteínas do leite de vaca (APLV), a qual foi confirmada posteriormente com análises sanguíneas (ige mediada desde logo). O plano de acção foi traçado e este incluía a toma de leite extensamente hidrolisado e a evicção total de alimentos com proteína de leite de vaca na sua composição (inclusive por mim, uma vez que amamentava e que amamentaria até ele ter 12 meses).

Dali a uns dias, o Pedro também foi visto por uma dermatologista pediátrica, que prescreveu um “plano de ataque” e as coisas começaram, finalmente, a entrar nos eixos. Foi-nos recomendada uma outra pediatra, uma profissional bastante conhecida no meio, e a consulta dos cinco meses já foi com ela, apesar de continuar a ser acompanhado, mensalmente, também na consulta de alergologia.

Infelizmente, a nova médica não estava minimamente sensibilizada para as questões das alergias alimentares, o que nos levou, algum tempo depois, a procurar uma nova pediatra (fenomenal e que mantemos até hoje). Os meses foram passando, o Pedro adaptou-se lindamente ao novo leite e a pele melhorou substancialmente. Acalentámos a esperança que a alergia passasse por volta dos 12 meses, mas infelizmente isso não só não aconteceu, como o grau da alergia aumentou.

O maior susto das nossas vidas

No dia 31 de Dezembro de 2012, resolvemos experimentar uma nova papa sem leite e, foi aí, que compreendemos a verdadeira gravidade de uma alergia alimentar. Como a papa tinha sido produzida na mesma linha onde são feitas as papas lácteas tinha alguns vestígios de leite, os suficientes para desencadearem um choque anafiláctico. O Pedro começou a ficar às manchas, inchado, com falta de ar, com vómitos… Naquela altura, tudo o que tínhamos em casa como SOS era Fenistil gotas e foi o que lhe demos… Voámos para as urgências e ali recebeu uma injecção de adrenalina, a tempo de o salvar.

A partir deste incidente, todos os cuidados foram redobrados e andamos sempre munidos de um kit de emergência com anti-histamínico, broncodilatador, corticóide e injecção de adrenalina.

Aos dois anos foram repetidas as análises e alguns valores começaram a baixar, todavia, não ao ponto de se tentar fazer uma provocação oral, em hospital. Para já, vivemos um dia de cada vez. Ou melhor, ao ritmo de um copinho de leite (extensamente hidrolisado ou vegetal) de cada vez! 🙂

* Este post passará a integrar uma secção do blogue, designada “A Nossa História”.

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